Ronaldo Werneck
MORTE DO ATOR OCTÁVIO TERCEIRO:
PRODUTOR MUSICAL E COMPANHEIRO
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Quando naquela noite carioca dos anos 1960 o casal entrou no apartamento de
meu amigo, o poeta Francisco Marcelo Cabral, só tive olhos para a
deslumbrante morena. Era a então jovem atriz Rejane Medeiros, que adentrava a
sala com toda autoridade, acompanhada por seu companheiro Octávio, que só
depois saberia que rimava com Terceiro. Rejane só revi 30 anos depois, no
lançamento de um livro sobre Gilberto Gil.
Octávio, não. Revi muitas
vezes, aqui e ali. Simpático, bem falante, acabamos amigos, companheiros pela
vida afora, embora nos víssemos ocasionalmente. Só mais tarde, nós dois
morando no mesmo bairro, é que estreitamos a amizade em longos papos noite
afora, Copacabana adentro, falando de tudo e de nada: leia-se muito cinema,
muita música.
Um dos atores mais identificados com o universo de Rogério
Sganzerla, Octávio Terceiro foi o protagonista do último filme do diretor,
“Signo do Caos” (2003), que fecha a tetralogia sobre o percurso de Orson
Welles no Brasil. Todos esses quatro filmes dirigidos por Rogério contaram
com a sua forte presença. No vídeo que se encontra ao final, Octávio comenta
sobre as filmagens com Sganzerla.
Amigo de João Gilberto, o produtor
musical OctávioTerceiro participou da produção de vários de seus shows ao
redor do mundo. Quando lancei meu livro Há Controvérsias 2 em 2011, na
Travessa de Ipanema, Octávio apareceu com dois livros para eu autografar: um
para ele, o outro para João Gilberto. “João gosta muito do Lúcio Alves. Vi no
seu livro que você conheceu o Lúcio, que fala bem dele. O João vai gostar de
ler”. Não sei se o João leu, mas o livro chegou às suas mãos.
Em
Cataguases, maio do ano passado, me falaram que havia um ator na cidade que
estava me procurando. Não atinei quem podia ser. Dias depois, eu estava num
bar aqui da Avenida onde moro quando alguém bate em minhas costas. Era o
Octávio, meu velho amigo Octávio Terceiro, que fazia um dos personagens do
filme “Natureza Morta”, que a diretora Clarissa Ramalho – que foi casada com
meu amigo, o também diretor Ricardo Miranda – estava rodando nos arredores da
cidade.
Em outra mesa, estava também minha amiga dos tempos de Rio de
Janeiro, a atriz Rose Abdallah, que contracenava com Octávio no filme de
Clarissa. Mas quase não falei com a Rose, que foi embora cedo, pois iria
filmar na madrugada seguinte. Octávio ficou e emendamos num papo sobre sua
ideia de um show em torno de Lúcio Alves. Disse que pensava em aproveitar sua
vinda para filmar em Cataguases para conversar comigo sobre isso, já que eu
conhecera o Lúcio, e que ele iria convidar a Dóris Monteiro, grande amiga do
Lúcio, para também participar do “nosso” Projeto Lúcio Alves. Já o filme de
Clarissa Ramalho merece outro parágrafo.
Acabo de conversar com ela por
telefone, para falar da morte do Octávio e saber do filme. Clarissa me diz
que “Natureza Morta” foi exibido no Festival de Tiradentes, pouco antes do
início da pandemia, e que Octávio esteve presente. Aliás, ele esteve também
presente nos dois filmes anteriores, dirigidos por Ricardo Miranda, que
formavam uma trilogia com “Natureza Morta”. Se este – com a Clarice assumindo
a direção depois da morte de Ricardo, – era uma adaptação livre do romance “A
Carne”, de Júlio Ribeiro, os outros dois foram adaptados de contos de
Flaubert: “Djalioh”(2011) e “Paixão e Virtude” (2016).
Clarissa me disse
também que Octávio estava filmando com Cavi Borges quando passou mal (ele
teve um AVC há cerca de um mês). Não sabia disso, e só soube hoje pela manhã,
quando li a notícia de sua morte no Globo. A última vez que nos vimos foi
exatamente há um ano, e novamente na Travessa de Ipanema, lançamento de meu
livro “Momento Vivo”. Fomos depois esticar no velho Diagonal no Baixo Leblon
e nos confraternizamos noite aforadentro. O Projeto Lúcio Alves voltou à tona
e combinamos de nos encontrar para levar a coisa adiante. Octávio Terceiro
morreu no último sábado. Tinha 84 anos e, como sempre, muitos projetos pela
frente.
Vejam no link a seguir Octávio Terceiro falando sobre as filmagens
com Rogério Sganzerla.
https://www.youtube.com/watch?v=KnxuTVX4L18
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autor: Ronaldo Werneck
Ronaldo Werneck,
poeta e escritor
MG
https://ronaldowerneck.blogspot.com/
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