15/09/2015
Ano 19 - Número 952
ARQUIVO
PEDRO FRANCO
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Cuidado, muito cuidado
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Tempos ruins estamos vivendo e de todos os lados vemos corrupção,
cerceamentos e politicamente corretos, só que mais para incorretos que
para corretos. E a que vem esta choradeira. Vale dizer que se não serei
canonizado ao passar desta para outra, ainda assim espero benevolência com
os atos de minha vida, nada de especial nem para o bem, muito menos para o
mal. Até aqui não disse nada, agora digo a metade e que dará vaza à
segunda. Escrevo há mais de vinte anos um caderno de recortes do ano para
o filho. Ele dava plantão em local sem atividades e, esperando turbulentas
chamadas médicas de urgência, tinha períodos vagos e sem maiores
possibilidades de preenchê-los de forma agradável. Então bateu na cachola
a ideia de coletar tudo de interessante, ou de especial, do ano, colar em
caderno de desenho sem pauta e entregá-lo nos primórdios de dezembro.
Agora sou cobrado e se nas cercanias do Natal o filho não vê movimento na
feitura do caderno de Natal, estranha e passa a dúvida à mãe. Ele não dá
mais plantão, de meu filho passou a meu pai e, graças aos céus, não posso
reclamar de filha e filho. Sedas rasgadas e adiante. Almoçamos
diariamente. Dona MH, este filho e eu. Do nosso apartamento, oitavo andar,
vemos um sétimo andar de outro prédio do outro lado da rua e com visão
transversa. No dia com um acontecimento levamos susto. Uma criança, seus
cinco seis anos, corria a extensão de sua varanda, de uns oito metros e se
projetava na mureta, que não era alta. Enfim percebemos depois que há uma
rede e a garotinha não corria risco de cair lá de cima. Descrevo-a e sem
detalhar feições, que a distância não permite. Cinco anos, moreninha, de
calcinha, cabelos escuros ao vento, correndo e correndo de um lado a outro
e com graça infantil e ingênua, muito linda. E, chegamos ao ponto e que
provocou a choraminga anterior. Que graça seria tirar foto de bem longe,
para por no tal caderno. E por que não tiro a foto, se tenho máquina, a
fotografia ficaria linda e gravaria um momento de beleza para nós três,
que almoçamos. Diga-se, almoçamos e conversamos e como gratifica aos
velhos pais conversar. Não tirarei a foto. A família dela poderia se
insurgir e até com determinada razão, porque não me conhecem. Poderia ser
tachado de pedófilo, etiqueta terrível e absurda, que grassa nos tempos
atuais, já que a pedofilia, muito infelizmente, aumenta e aumenta. Falar
na minha idade, professor, médico, pai, avô, currículo sem manchas, não
adianta, já que há pedófilos com todas estas características. Não tirarei
a foto. Fica a notícia e em vez da foto é possível que ponha este
simulacro de crônica no tal caderno. Nestes tempos nebulosos até atos de
beleza devem ser vistos com cuidado, pois os politicamente corretos estão
ai e sempre alertas e, enfatizo, até com determinadas razões no caso em
foco. Pena que não fiquem alertas para fatos tão deprimentes como
verdadeiras pedofilias, corrupções, violências e até balas perdidas.
Perdidos estão também ilusões e até votos. Cuidados, sem perder ternuras
(nada com as histórias do “paredon”) e principalmente esperanças. O modo
de feitura do tal caderno, conto em outro dia. Será que vão achar a
crônica indício de pedofilia? É possível que o “copy desk” pense em trocar
calcinha por calção e não deixarei, pois então haveria na criação uma
noção pedófila. É cada uma!
- Comentários sobre o texto podem ser enviados ao autor, no email
pdaf35@gmail.com
(15 de setembro,2015)
CooJornal nº 952
Pedro Franco é médico cardiologista,
contista, cronista, autor teatral
Conheça um pouco mais de Pedro Franco
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