25/11/2011
Ano 15 - Número 763
ENÉAS ATHANÁZIO
ARQUIVO
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Enéas Athanázio
Cachorros
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Andando pela rua, nas minhas costumeiras caminhadas, comecei a lembrar dos
cachorros que tive. Eles são uma de minhas manias, herdada pelas filhas, uma vez
que todas têm cachorros. Os meus foram tantos que nem consigo lembrar de todos.
Entre os mais antigos figura o Rocki, um cão brasino que ganhei dos amigos Mena
Barreto, ainda filhote, e que se tornou uma fera para os estranhos, embora
brincalhão e carinhoso com os de casa. Eu o recebi em Campos Novos, onde passava
as férias, e teria que levá-lo para Calmon, residência de minha mãe. Junto com
uma de nossas tantas Bolinhas, que lá também se encontrava por razões que não
recordo, ele foi colocado num caixote gradeado na parte superior e despachado
até Joaçaba pelo ônibus do Tessaro. Lá foram embarcados no misto, o mesmo trem
em que eu viajava. Como ele atrasou muito, fato comum, só passou em Calmon alta
madrugada e os ferroviários sonolentos esqueceram o caixote com os cachorros e
ele seguiu até o fim da linha, em Porto União. Os pobres só retornaram no dia
seguinte, permanecendo na prisão por dois dias e uma noite. Quando abri o
caixote eles pareciam abobados e não conseguiam caminhar. Tive que massagear
suas pernas e fiquei assombrado com a sede que tinham.
Outro que deixou boas lembranças foi o Mundinho. Era um “fox paulistinha”, todo
preto e de longas pernas. Tinha um impulso extraordinário nas pernas, saltando
do chão aos meus braços, já se posicionando para ser agarrado, sob pena de se
estatelar de costas no chão. Saltava do solo para dentro do carro, através da
janela, e o mesmo fazia em casa. Gostava de me seguir até o Fórum, correndo
atrás do carro, com as orelhas abaixadas, e não se perdia no trânsito. Às vezes
eu subia as escadas do Fórum, escutava um barulhinho atrás de mim, e deparava
com ele me seguindo, ressabiado. Tinha que voltar até em casa para levá-lo de
volta. Foi envenenado e teve morte quase instantânea, numa tarde em que o Pedro
Abreu, desembargador e ex-presidente do Tribunal de Justiça, estava em nossa
casa e testemunhou o desespero do animalzinho.
Sempre que encontro cachorros na rua eu costumo “falar” com eles. “Onde vai? Que
anda fazendo? Onde mora?” Alguns se alegram com a atenção recebida, sacodem os
rabos e dão mostras de simpatia; outros ignoram o cumprimento e prosseguem duros
no rumo de seus insondáveis compromissos. Como os seres humanos. Alguns passam a
me seguir, talvez esperançosos de encontrar um dono.
Cachorros são leais e não alimentam preconceitos ou ideologias. Não se importam
se o dono é rico ou pobre, feio ou bonito, de esquerda ou de direita, branco ou
preto. Reluzindo de gordos ou exibindo as costelas magras, estão sempre
solidários com seu dono e o seguem pelos caminhos.
Essas lembranças me ocorreram ao terminar a leitura de “Marley & Eu”, em que
John Grogan relata a vida e o amor ao lado do pior cão do mundo (Prestígio
Editorial – Rio – 2006). É um livro comovente que vem fazendo o maior sucesso.
(25 de novembro/2011)
CooJornal no 763
Enéas Athanázio,
escritor catarinense, cidadão honorário do Piauí
e.atha@terra.com.br
Balneário Camboriú - SC
Direitos Reservados
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