04/09/2010
Ano 13 - Número 700
ENÉAS ATHANÁZIO
ARQUIVO
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Enéas Athanázio
DICAS
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Popularizada pelo uso comum e até dicionarizada com o sentido de indicação
de algum fato pouco conhecido, a dica é uma palavra que ninguém mais
estranha. Pouca gente sabe ou recorda, porém, como foi aceita com reservas
pelos puristas da língua, considerada gíria das mais popularescas. Quem a
tirou da marginalidade linguística e lhe conferiu status de vocábulo
respeitável, no entanto, foi uma intelectual das mais conhecidas, dona de
admirável cultura e autora de uma obra consistente, em prosa e poesia.
Refiro-me à escritora paraense Olga Savary, desde muitos anos radicada no
Rio de Janeiro e com ativa vida cultural na antiga capital federal.
Segundo Ruy Castro, em seu célebre livro “Ela é carioca”, Olga Savary, a
única mulher que escrevia para “O Pasquim” desde o início, criou uma
coluna inédita na imprensa brasileira com o título de “Dicas”, mesmo
enfrentando os narizes retorcidos dos que não admitiam tais liberalidades
de linguagem. Nessa coluna, de intensa aceitação pelos leitores, ela
fornecia notícias da área cultural, sugeria restaurantes, bares, leituras,
músicas e até botecos. Assim, - conclui Ruy Castro, - a palavra fez sua
estreia em letra de forma pelas mãos de Olga, e “se consagrou logo no
primeiro número do jornal.” Foi ela também a primeira a dar os preços dos
pratos e bebidas “quando se tratava de notas sobre restaurantes e bares e
na época isso parecia um insulto ao leitor: era como chamá-lo de pobre ou
sovina.” Mesmo assim, lamenta ele, os dicionários não creditam o fato a
Olga Savary ou a “O Pasquim.” Mas isso não é de estranhar porque em
matéria de direitos autorais nosso país é uma selva.
Informa também o mesmo escritor que Olga criou o mito de Ipanema, antes
inexistente. “Este se criou (o mito) a partir das festas pré-carnavalescas
da poeta Olga Savary, então casada com o cartunista Jaguar, em fins dos
anos 50. Foi nelas que as diversas turmas se agruparam e veio à tona,
publicamente, a Ipanema boêmia, excêntrica e criativa...” Conhecidas como
festas de Olga e Jaguar, depois se alastraram por todo o bairro e delas a
poeta foi, aos poucos, se afastando.
Pioneira em muitas coisas, Olga foi a primeira mulher a frequentar o
“Sabadoyle” sozinha, sem acompanhante masculino, e até lavrou atas de
algumas reuniões. Essas reuniões que aconteciam aos sábados, na
casa-biblioteca de Plínio Doyle, foram consideradas machistas, um clube do
bolinha, prática que ela mudou para sempre. Sua presença nas reuniões está
registrada em livros e opúsculos. Ela foi ainda presidente do Sindicato
dos Escritores do Rio de Janeiro.
Sua atividade, porém, nunca se restringiu a essa faceta ativa e
movimentada. É poeta, contista, cronista, tradutora, antologista,
jornalista, agitadora cultural. Como poeta, segundo a melhor crítica, é
amazônida até a raiz dos cabelos, mesmo residindo no Rio há tantos anos,
radicalmente feminina, com acentuada brasilidade e erotismo. Ao longo de
sua carreira muitos prêmios e distinções lhe foram conferidos. Mas uma das
atividades de que mais se envaidece foi a de madrinha literária de
escritores de ambos os sexos que hoje brilham no mundo das letras. A
organização de antologias também lhe causa intenso prazer. “Organizar
antologias é um ato de amor com o trabalho do próximo – declara ela. – A
gente deixa de olhar só o próprio umbigo. É uma alegria descobrir bons
poetas. É um trabalho árduo, leva tempo...” Mesmo assim, ela se entrega a
ele com gosto.
Como tradutora, Savary verteu para o leitor brasileiro inúmeros autores.
Entre eles estão Laura Esquivel, Octavio Paz, Jorge Luís Borges, García
Lorca, Carlos Fuentes, Julio Cortázar, Semprún e Che Guevara, além de
“Conversa na Catedral”, de Mario Vargas Llosa, e “Confesso que Vivi”, de
Pablo Neruda, de quem traduziu nada menos que onze livros. Llosa e Neruda
devem a ela a tradução de duas de suas obras-primas.
São anotações esparsas a respeito da vida e da obra de Olga Savary, muito
aquém do muito que ela produziu, mas apenas algumas atividades destacadas
para que o leitor, assim motivado, procure melhor conhecê-la. Vale a pena!
(04 de setembro/2010)
CooJornal no 700
Enéas Athanázio,
escritor catarinense, cidadão honorário do Piauí
e.atha@terra.com.br
Balneário Camboriú - SC
Direitos Reservados
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