11/06/2005
Número - 423


ARQUIVO
BRAZ CHEDIAK

 

 

Braz Chediak



OS MERGULHÕES

Há alguns anos, durante a seca, era comum um casal de Mergulhões fazer sua pescaria no Rio Verde, em frente à minha varanda. Ficava horas a observá-los em seus vôos rasantes em busca do alimento, seus mergulhos e sua volta à superfície, abrindo as asas, com lambaris no bico.

Depois eles sumiram e pensei que haviam sido mortos, já que nós, seres humanos, sempre praticamos a caça predatória, implacável, contra os pássaros, animais silvestres e todas essas pequenas criaturas livres que se recusam a viver em cativeiro.

Mas hoje, ao entardecer, vi não apenas o casal, mas cinco mergulhões voando perto da ponte que separa meu bairro do centro da cidade. Fiquei comovido e maravilhado. Sei que faz parte da natureza a luta pela sobrevivência e pela perpetuação da espécie. Sei que já estamos percebendo que fizemos um grande mal ao planeta e que precisamos reparar este mal. Sei, também, que conseguiremos repará-lo.

Durante minha vida andei distraído de coisas importantes. Fui apagando, pela indiferença ou ignorância, minhas vivências. Agora, já velho, penso que devo também reparar o mal que fizemos excluindo da memória páginas que fazem parte de nossas vidas. Percebi a importância dessas páginas quando de manhã, sozinho no quintal da casa de minha mãe, me comovi diante da velha jabuticabeira carregada de frutos e de sanhaços. Sob seus galhos, senti a presença de meus pais e pensei: “Estou diante do eterno. Estou diante da reencarnação dos meus antepassados, e eles se reencarnam nas cores das frutas, no cheiro da água caindo na terra, no som dos pássaros saudando o alimento.” Naquele momento vi minha velha mãe, com suas pequenas mãos enrugadas em forma de concha, aparando as jabuticabas e nos contando mais uma vez sua história:

- “No dia em que plantei esta árvore, seu pai disse que não comeria de seus frutos. Ele sabia que as jabuticabeiras demoram a dar e já estava velho, já tinha tido um enfarte... Dez anos depois ela deu sua primeira carga. E eu levei para ele as primeiras jabuticabas. Ele estava na cama e comeu, uma a uma, cheio de alegria...”.

Assim como meu pai e minha mãe, os mergulhões voltam para completar sua missão de eternidade.

E apesar de termos nos afastado dessa eternidade, creio firmemente que neste mundo em que nós, em busca de esperanças, consumimos livros de auto-ajuda como se eles nos conduzissem a um milagre, buscamos religiões como se elas nos salvassem de nós mesmos, nos escondemos nas drogas como se elas não nos conduzissem ao abismo, neste mundo encontraremos a morada da felicidade suprema que está no centro de nossos corações.

É incrível que, diante de tantas coisas maravilhosas nós trocamos Deus por um computador e o adoramos, substituímos o altar pela televisão, a novena pela novela. É incrível que precisamos criar vidas artificiais quando a vida verdadeira esta aí, ao alcance de todos nós.

Sei que, volta e meia, recorro a alguns escritores, poetas, santos e filósofos em busca da compreensão do mundo em que vivo. Fico feliz quando discordo de seus pensamentos. A discordância nos ajuda a buscar nossas próprias conclusões. Mas fico mais feliz quando concordo com eles. É como se encontrasse algum amigo querido com quem pudesse dialogar, ainda que, mesmo com este diálogo, somos solitários em nossas responsabilidades.

Observando os mergulhões, pensei também no mergulho profundo que São Francisco de Assis, Rimbaud, Henry Miller, etc., deram em suas próprias vidas. E da nova vida que viveram quando voltaram à tona. Pensei nas palavras de Miller: “Hoje os homens estão começando a compreender que se quiserem encontrar a salvação terão de se erguer por si mesmos. Precisam descobrir sozinhos um novo senso de equilíbrio. Cada qual precisa recobrar o senso do destino...”

Nós recobraremos o equilíbrio e o senso do destino, tenho certeza, e um dia acordaremos e veremos a vitória da vida, seja ela numa jabuticabeira negra de seus frutos, seja no vôo de uma ave desajeitada e solitária. E receberemos esta vitória como uma benção, uma dádiva que a vida nos dá todos os dias. E a receberemos com humildade.
 


(11 de junho/2005)
CooJornal no 423


Braz Chediak,
cineasta e escritor
Três Corações, MG
brazchediak@bol.com.br