Antonio Nahud
PEQUENAS HISTÓRIAS DO DELÍRIO PECULIAR HUMANO 04. BRINQUEDO DO CÃO
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Edna abandonou-me após vinte
anos de casamento. Cansou de meus excessos. Eu ando nos bares, encho a cara,
devoro gatinhas de menos de dezoito anos. Nunca gostei de mulher madura, sei
que é um defeito, mas quem não os tem? De uma certa forma, creio que nunca lhe
fui infiel, afinal não levei a sério nenhuma das amantes. Não gasto um real
com elas, ou melhor, nada mais do que umas cervejinhas. Ela não compreendia
esse assanho masculino, essas coisas de homem, vivia de mau humor, discutia
por besteiras e no dia de nossas bodas, um domingo cinzento, ao acordar às
duas da tarde, com uma bruta ressaca, deparei com Edna arrumando as malas com
a ajuda da mãe, uma megera impossível de trocar duas palavras. "Deixo-o",
disse. Não abri a boca. "Não quer saber o por quê? Você é da turma de
Heleninha Roittman", alfinetou a sogra.
Heleninha-o-quê? Dá para
aguentar uma velha lembrando de um personagem de telenovela de quinze anos
atrás? Continuei dormindo, a vida seguindo igual. Os dois filhos ingratos
acompanharam a mãe, a empregada também deu o fora, deixando-me sozinho na casa
recém-construída. Os amigos festejaram, era o último casado, todos haviam
passado por um divórcio e, alguns, não suportaram tampouco o segundo
casamento.
Confesso que muitas vezes me parece triste a casa vazia,
desarrumada, roupas espalhadas, comida por fazer, mas como dizem que mulher
não é criada, ela não faz falta por outros motivos. Na verdade, nem sei como
as mulheres sobrevivem no mundo de hoje. São tantas por todos os lugares,
sobrando, loucas por rola, histéricas, descontroladas, amargadas na solidão.
Um homem de minha idade, aos quarenta e oito anos, consegue qualquer garotinha
de quinze. Elas fingem acreditar em tudo o que a gente promete, arquitetando
imediatamente um matrimônio. O que a mulher deseja é uma casa, filhos e um
idiota que possa apresentar como "o meu marido". Essas são as modernas, as
feministas, as libertárias.
Esta noite marquei encontro com uma
ordinária, mas as ordinárias são de outra classe: as fêmeas mais interessantes
do mundo. Elas estão nas capas da Playboy, nos programas de tevê, nas praias e
nos bares. Quando conheci Geórgia, durante a festa de Santo Antônio, não se
fez de difícil, como é comum inicialmente, e sentou-se na nossa mesa. "Um
brinquedo do cão", comentou um amigo bêbado. Fez que não ouviu, sorriu,
mostrando lindos dentes brancos, e contou do trabalho como enfermeira, das
horas que perde tratando o cabelo, das telenovelas favoritas e de propostas de
casamento recusadas. "Não nasci para o casório. Não quero ficar gorda na beira
de um fogão", filosofou, e eu e meus amigos concordamos. Quando pediu licença
e foi ao banheiro retocar a maquilagem, falamos do rabo generoso, da boca
carnuda boa para "aquelas coisas" e da voz sacana, ardente, cheia de intenções
maliciosas. Voltando, tomou um gole de cerveja, e levou a mão à boca. O rosto
se transformou. Baixou a cabeça e procurou algo no chão. "O que está
acontecendo?", perguntamos. Ela mostrou a prótese dentária numa das mãos:
"Encontrei". Lavou a chapa com cerveja, encaixou-a na boca e continuou falando
de desejos femininos. Noite adentro, deu-me o telefone e pediu que ligasse no
final de semana. Liguei. Vou encontrar a ordinária. Os amigos gozam, não
acreditam que sairei com uma desdentada. E daí? Direi: "Geórgia, você é a
mulher dos meus sonhos". Ela sorrirá contente. Que importa se os dentes são
falsos? Os sentimentos também não o são? Não é assim a vida de todos nós? Ora,
meus queridos, uma boa vagabunda tem o seu lugar.
(RRT, CooJornal, 27 de abril, 2002)
Antonio Naud é escritor, assessor literário, cineasta
RN
Antonio Júnior segue a caminhada de escritores como Bruce Chatwin, François
Augiéras e Paul Bowles. Viaja por diversos países,
fotografando e escrevendo um diário de viagem. Escreve para as revistas Go
(Barcelona), Veludo (Lisboa), Simples? (SP) e é correspondente do jornal A
Tarde (Salvador, Bahia).
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